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Meu namorado prefere as gordinhas


Ironicamente, conheci meu namorado durante o mês em que estive mais magra na minha vida.

Eu estava na festa de aniversário de um amigo em um bar quando vi meu futuro namorado Brian do outro lado, falando com o aniversariante. O Brian era o tipo de cara que passei a maior parte do ensino médio e da universidade e de toda minha vida adulta desejando e nunca consegui: magro, com cabelos escuros, óculos e calça jeans rasgada nos melhores lugares. Tinha uma boca linda que dizia empolgada coisas que eu não conseguia ouvir, mas que estava fazendo todo mundo ao redor dele rir.


Por Kristin Chirico | kristin.chirico@buzzfeed.com




Foto Reprodução


Se eu ainda estivesse no auge do meu peso, nunca teria me aproximado do Brian. Como eu era gorda, me ensinaram que há uma ordem de operações para o amor: primeiro, você emagrece; e então você pode sair com quem você quiser. Se não tiver a primeira coisa, a segunda coisa é impossível. Assim, para muitas mulheres que lutam com seu peso, isso se torna não só uma luta para sua saúde ou bem-estar, como também uma luta para serem merecedoras do amor que muitas pessoas consideram como normal.

A maior parte da minha vida, meu peso foi como um holofote que me perseguia, realçando meu corpo mesmo quando eu só queria escondê-lo. Na terceira série, minha turma me elegeu extraoficialmente como “a porca da classe” — um título que abracei com muito gosto, pois a alternativa era não ter amigo nenhum. Quando eu tinha 10 anos, meu pai arrancou uma caixa de cereais da minha mão quando eu estava preparando a segunda tigela e me disse que eu iria “virar uma grande baleia”. No verão em que fiz 14 anos, eu suava como uma porca todos os dias por uma hora durante o treino da equipe de natação. Ainda assim, um dia, quando eu coloquei um biquíni, minha mãe falou tanto sobre minha barriga gorda que ela só pararia de falar quando eu jogasse o biquíni fora e nunca mais usasse um. Eu sempre odiei o meu corpo, e olhando pra trás, não estou certa se já me deram a oportunidade de amá-lo.

Mas no dia em que conheci o Brian, eu tinha acabado de passar o ano anterior perdendo lentamente quase 23 quilos, quase que exclusivamente devido ao desemprego. Eu não comprava muita comida e gastava boa parte do meu tempo livre desenvolvendo um hábito nervoso de corrida que me levou a passar horas, todos os dias, trotando em círculos em volta do meu bairro, tentando ir a algum lugar, enquanto minha carreira estava correndo sem sair do lugar.

Então eu estava me sentindo corajosa, aquele estúpido tipo de coragem que vem inesperadamente por você ter um corpo que pensou que nunca teria, e imaginando que tipo de coisas ele poderia conseguir. E, bem louca, fui até o outro lado do bar e me apresentei a ele.

Como eu era gorda, me ensinaram que há uma ordem de operações para o amor: primeiro, você emagrece; e então você pode sair com quem você quiser.

Houve um período de três horas — entre o momento em que Brian me deu o primeiro beijo e o momento em que eu soube que o Brian se sentia atraído predominantemente por mulheres gordas — em que eu senti que eu poderia fazer qualquer coisa. Na minha cabeça, eu tinha feito o impossível. Seduzir uma pessoa magra e atraente foi como conseguir bronze, prata e ouro nas Olimpíadas das Ex-Garotas Gordas.

Em algum momento naquela noite, lembro-me de ter deitado ao seu lado, ainda me sentindo incrivelmente pretensiosa com minha vitória, quando o Brian me falou que normalmente eu não era o tipo dele.

Meu alerta interno de idiotas disparou. Ai, Deus, pensei. Esta é a parte em que ele me informa como ele é legal por ficar comigo apesar da minha bunda rechonchuda?

“Qual é normalmente o seu tipo?”, perguntei, me preparando para a parte em que ele daria a entender, não tão sutilmente, que ele geralmente conseguia alguma garota melhor do que eu.

Eu não tive a resposta que esperava.

“Eu gosto de mulheres gordinhas”, o Brian respondeu. “Mulheres bem gordinhas, na verdade”. Ele estava tão calmo e tão normal que era como se ele estivesse me falando sobre o tempo. Ele não estava envergonhado. Então repentinamente me toquei que isto não era uma tentativa de me derrubar, era apenas uma coisa (completamente normal, para ele) que ele estava revelando sobre si mesmo. Em outras palavras: estava conversando.

Mas aquela pequena parte de mim que esteve eufórica por horas, de repente ficou bem quieta. Mas eu sou o seu tipo, pensei tristemente. Naquele momento, eu sei que Brian tinha dito que ele não me considerava gorda, mas eu sei bem também, como qualquer um, que as pessoas não mudam fundamentalmente por quem se sentem atraídas. Brian ainda se sentia atraído por gordinhas, e eu era uma delas.

Isto, é claro, não tirou a atração que eu sentia pelo Brian. Nós começamos a ficar quase que imediatamente e nos tornamos inseparáveis. Quando eu o descrevia para as pessoas, minha tendência era a de usar como referência as celebridades pelas quais eu estava apaixonada naquele momento:

“Ele é exatamente como o Ben Folds, mas moreno, jovem e com uma pele melhor”.

“Ele é como se fosse uma versão local do John Oliver, mas com dentes melhores e um nariz mais atraente”.

“O Brian parece o Rick Moranis em Os Caça-Fantasmas”, eu disse uma vez, sem mais nem menos, durante uma festa de Halloween. “Mas, claro, ainda mais bonito”.

Foi nessa época que eu comecei lentamente a engordar de novo. Não que o Brian estivesse fazendo algo para me sabotar — ele apoiou e apoia o meu desejo de comer bem e me exercitar. Foi apenas o resultado de estar em um relacionamento feliz, inesperadamente com um trabalho de tempo integral e com a vida entrando nos trilhos. Coisas normais.

Com seis meses de relacionamento, eu me vi em uma situação muito desesperadora. Coloquei um vestido de verão que pensei que poderia ser um pouco aberto demais nas costas para meu peso atual.

“Imagino que, na pior das hipóteses, posso encontrar uma parede para encostar, ou andar bastante de costas”, eu disse ao Brian enquanto me vestia, tentando preventivamente pedir desculpas por uma roupa que eu tinha certeza que estava pendendo entre o lisonjeiro e o grosseiro.

Brian, no entanto, amou o vestido. Talvez até um pouco demais — eu gastei muito tempo, enquanto me vestia, dando tapas em suas mãos para mantê-las longe das minhas costas. Eu me senti feliz ao usá-lo, linda. Em breve eu estaria usando o tempo todo.

Então eu o usei para uma festa. No final da noite, Brian se virou para um amigo nosso em comum e, entusiasmado e embriagado, opinou: “A Kristin não está linda nesse vestido?”

O silêncio que se seguiu foi como aquele momento antes de apertarem o botão no tanque de água (igual aquele do Sílvio Santos), e você sabe que está prestes a cair, indefesa, em uma banheira gelada de punição. Eu percebi, tardiamente, é óbvio, que, para o Brian, eu realmente estava linda naquele vestido. Porque eu estava gorda.

Cheguei ao ponto em que os elogios do Brian eram realmente dolorosos de ouvir — toda vez que ele dizia “você está linda”, tudo o que eu ouvia era “você está gorda”.

Quando você é uma pessoa gorda que está emagrecendo, as pessoas vão surgir do nada para dizer que você está “incrível” — até a minha psiquiatra me chamava de “a incrível mulher que encolheu” em quase todas as sessões. Pessoas bem intencionadas sentiam essa necessidade constante de deixar bem claro que eu estava, de certo modo, melhor depois de ter emagrecido, e isso só deixa muito mais doloroso quando as pessoas param de te dizer que você está bem e não dizem mais absolutamente nada.

Pela primeira vez desde que eu tinha começado a sair com o Brian, olhei para mim e percebi que meu corpo, quase sem que eu percebesse, estava voltando ao seu antigo estado de gordura. Esta é você de verdade, pensei. A outra foi apenas um disfarce. Mas você não pode enganar todo mundo para sempre.

E quanto menos elogios sobre o meu corpo eu recebia de outras pessoas, mais eu recebia do Brian. Cheguei ao ponto em que os elogios do Brian eram realmente dolorosos de ouvir — toda vez que ele dizia “você está linda”, tudo o que eu ouvia era “você está gorda”.

Eu comecei a experimentar roupas na frente do Brian para conseguir sua opinião. Era um bom sistema. Tudo que ele gostasse, eu não usaria.

Foi nessa época que eu comecei a ser má comigo mesma — verdadeiramente cruel. Eu me olhava por horas no espelho da mesma forma que uma criança observa embasbacada uma pessoa feia na rua. Eu empurrava e puxava os rolos de gordura da minha barriga com minhas mãos o mais plano possível que conseguia e tentava imaginar como ela ficaria pela metade, sem estar sobrecarregada com o que eu tinha feito a ela. Cada elogio que o Brian me dava ia de encontro com algo igualmente cruel sobre mim. Era como se minha auto-imagem estivesse em uma partida de tênis, e era mais importante para mim estar certa do que me sentir bem.

No final das contas, as expressões que Brian fazia quando eu acabava comigo, mudaram de compaixão para frustração.

“Eu amo o seu corpo”, o Brian dizia, cuidadosamente. “Pois a Kristin vive no seu corpo”.

Mesmo sendo amada, eu ainda não me sentia assim — pois na minha mente, eu não tinha ganhado isso. Você venceu, eu tentava dizer a mim mesma. Você ainda ganhou amor enquanto engordou.

Então eu fui a uma sessão com minha psiquiatra e, pela primeira vez em anos, ela não disse nada sobre o meu corpo. Absolutamente nada.

Não, eu não ganhei, era isso o que eu me dizia. Eu consegui o que queria, mas eu não fiz por merecer. Isso é trapacear. Eu trapaceei.

E embora o Brian tenha sido sempre aberto e confiante sobre suas preferências, elas começaram a me envergonhar. Uma vez, numa festa, ele mencionou para um grupo de pessoas com as quais conversávamos que a Rebel Wilson era gostosa. Em seguida, houve um breve silêncio, durante o qual na verdade eu saí de fininho da conversa, como se eu estivesse tentando fisicamente escapar antes que uma comparação entre a Rebel Wilson e mim pudesse me atingir.

O que é ridículo. A Rebel Wilson é fabulosa. Por que eu não ia querer isso para mim?

E o que aconteceria se eu perdesse todo este peso?, perguntava a mim mesma amargamente. O Brian ainda se sentiria da mesma forma? Eu estava condenada a ser convencionalmente atraente ou objeto do fetiche de alguém?

Assim como eu não sou apenas uma garota gorda, o Brian não é apenas alguém que gosta de garotas gordas.

O Brian se cansa da minha auto-depreciação. Ele tem limites, ele é humano e, o mais importante, ele é um ser humano que me ama e me acha atraente, e está frustrado por ter que defender essas escolhas justamente para mim.

Uma vez estávamos em um bar e vi uma mulher muito gorda sentada junto ao balcão. “Você a considera bonita?”, perguntei ao Brian, de uma forma que indicava claramente que ela não era. Foi uma pergunta mesquinha, cruel, e eu já sabia a resposta. Mas eu me peguei querendo ouvi-lo dizer que não, como se eu pudesse enganar o Brian quando ele admitisse abertamente que sua ideia de beleza — e que suas ideias sobre mim — estavam, é óbvio, incrivelmente erradas.

“Sim, considero”, o Brian respondeu, sem morder a isca. “Ela é muito bonita. Qual é o seu problema? Quer outra cerveja?”

Uma das coisas que cheguei a entender é que, quando você está solteira, odiar o seu corpo é mais ou menos um crime sem vítimas, sem contar você mesma. Quando você entra em um relacionamento, no entanto, isso se torna um referendo constante sobre os gostos e o julgamento da pessoa que te ama.

O outro problema era que, quanto mais eu me cutucava, mais o Brian se cutucava também. Embora ele objetivamente não seja uma pessoa muito gorda, ele sucumbiu um pouco aos 4 a 7 quilos que todo mundo ganha quando está feliz e apaixonado. Mas um dia eu vi que ele estava se olhando no espelho, agarrando seu pneuzinho e se torturando sobre como ele achava que isso o deixava uma pessoa horrível.

“Isso é ridículo”, eu disse. Pois isso era bem óbvio — ele estava tentando pegar um punhado do seu pneuzinho para enfatizar, mas não conseguia nem encher a mão.

“Não é, não”, ele disparou de volta, com aquele tom de voz irritado, desesperado, que já usei tantas vezes. “Agora eu sou apenas uma pessoa gorda”.

Não, você não é, pensei, e eu me perguntei quantas vezes o Brian tinha se sentido assim: frustrado, irritado e indefeso enquanto me observava destruir uma coisa que ele amava.

A coisa que eu mais me esforcei para entender foi que, assim como eu não sou apenas uma garota gorda, o Brian não é apenas alguém que gosta de garotas gordas. Ele é alguém que conseguiu superar isso nesta vida, inundada com hábitos sociais sobre o que está bem e o que não está bem em termos de atração física, e ele foi indiferente a um desses hábitos. A forma como ele lida com esta atração é realmente uma das coisas mais atraentes sobre ele. Ele sabe que não tem a mesma opinião que a maioria das pessoas e não desperdiça tempo nenhum se preocupando com esse fato.

Eu gostaria de poder dizer que estou 100% bem comigo mesma. Quando as pessoas elogiam fotos minhas que eu odeio, eu ainda vou ficar imaginando como eu estou mal em todas as outras fotos que elas não estão elogiando.

Mas eu faço pequenas coisas. Quando alguns colegas do trabalho e eu publicamos em dezembro este post (em inglês) sobre roupas “one size fits all”, fiquei apavorada com os tipos de coisas que as pessoas iriam dizer sobre o meu corpo. Mas quando as pessoas foram predominantemente tão positivas em relação a mim, isso me fez lembrar como é importante não ser seu maior censor. Deixei-me acreditar nas coisas boas que as pessoas disseram.

Dois anos atrás, eu nem tinha percebido que faziam biquínis de tamanho 50 — mas acontece que fazem. Vários bonitinhos. E este ano pretendo comprar um e usá-lo na praia. E vou curtir que ninguém será capaz de reclamar comigo sobre minha barriga gorda (sem parecer uma louca). Vou curtir como isso deixa o Brian animado, me ver feliz na minha própria pele. Vou deixar que ele curta aquilo que ama sem que eu destrua isso. Mas o mais importante, vou trabalhar para ganhar amor de mim mesma, a pessoa que sempre vai ser a mais difícil de conquistar. Vou flertar o máximo que eu puder e vou me ganhar de volta.





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